top of page
Buscar

[Festivais e Mostras] A Queda Do Céu

  • Foto do escritor: Lorenna montenegro
    Lorenna montenegro
  • 20 de nov. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 28 de jan.

Direção: Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha




"A terra é o corpo-coletivo, é ancestralidade e é futuro. E a Queda do Céu é a destruição da floresta pelo garimpo, que contamina águas e rompe ciclos sagrados, que nos mata." Davi Kopenawa

Reahu é o ritual fúnebre, de passagem entre mundos onde os Yanomami celebram a vida, ao longo de semanas preparando o corpo o deixando na floresta para decomposição, dentro de uma cesta, pendurado em uma árvore. Quando resta o esqueleto, os ossos são queimados em uma grande fogueira, perpetuando quem aquele "parente" foi na aldeia e entre os seus, em meio ao ritual repleto de cantos e danças, o morto é o honrando ao misturar suas cinzas ao mingau de banana e consumi-las, e presenteando os "parentes" de aldeias aliadas com parte das cinzas, guardadas em cabaças.


Dirigido a quatro mãos por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, “A Queda do Céu” parte da força incontornável da figura de Davi Kopenawa e do povo Yanomami, de seu pensamento e costumes, para construir um tributo audiovisual à luta pela floresta em pé. O filme é inspirado no livro homônimo que Kopenawa escreveu com o antropólogo Bruce Albert, mas opta por não adaptá-lo diretamente, já que o desafio é hercúleo de transformar uma obra de grande complexidade antropológica e existencial em um filme documental. Em vez disso, os cineastas buscam uma adaptação mais lateral do que literal como forma de evocá-lo, traduzindo suas ideias por meio de imagens, paisagens sonoras e performances cênicas.


"Quando a gente fala sobre isso, a gente nem usa a palavra adaptação e até brinca que é uma inadaptação, porque é um livro inadaptável, não só pela sua dimensão do tamanho, mas a sua dimensão estética, espiritual, conceitual, política, cosmopolítica que está ali. Nessas longas conversas, antes de filmar, foram mais ou menos quatro anos de pesquisa, de trocas, de sonhar o filme junto com o Davi, com o Bruce; e em uma dessas conversas também, o Bruce trouxe para a gente, que não seria uma adaptação, seria um novo capítulo, só que cinematográfico, do livro. E isso meio que libertou muito a gente no processo de construção e de transmutação que a gente estava sonhando", assinala Gabriela.


Fruto da parceria de vida e de trabalho de Gabriela e de Eryk, iniciada no cinema com Edna (2021), um documentário poético, humanista e politicamente engajado, A Queda Do Céu não é diferente em tom - a luta e a memória da ex-guerrilheira Edna Rodrigues de Souza inspiraram o diário repleto de histórias, de canções e de desejos - ainda que envolva um esforço concentrado na mensagem de Kopenawa para o mundo, um grito do coração dos povos da floresta para fazer com que o napë (o branco, o de fora, aquele que é nocivo à floresta), aprenda sobra a vida, o sonho e a necessidade da ação para impedir que o céu desabe. Eryk Rocha acrescentou que durante a pesquisa do filme, da escrita ou escritas e reescritas das versões do roteiro, desencadeadas por um estudo muito profundo sobre o livro e a matéria do livro, surgiu a compreensão de que "a gente ia concentrar os nossos esforços na terceira parte do livro, que se chama A Queda do Céu, e que é quando o Davi faz essa contra-antropologia."


O plano inicial de A Queda do Céu é um plano sequência, que enquadra a estrada e uma longa caminhada dos Yanomami em direção de Watoriki, aldeia localizada aos pés do monte Roraima, entrando no quadro, cantando, até passarem ao largo da câmera, na estrada manchada pelo sangue dos indigenas que defenderam a terra; é um plano síntese do filme, que tem como ponto culminante o momento em que Kopenawa olha para a câmera e há uma ruptura daquele plano estático, quando o enquadramento sutilmente abre, se espraia e permite a passagem do xamã até que ele saia do quadro.


Quando os Yanomami desaparecerem o céu cairá e a terra irá queimar!

Visões xamânicas, meditações etnográficas, conversas on e off câmera, comunicações do xamã no rádio patrulha que faz a ligação entre o mundo interno e externo à aldeia, permeiam a costura narrativa de A Queda Do Céu, que teve sua estreia mundial na Quinzaine do Festival de Cannes em maio deste ano, com a presença de Kopenawa. A Queda do Céu, o filme, margeando o livro em seus três pilares - a infância (e a cosmogonia yanomami), depois com a juventude índigena vendo o avanço do branco e a biografia de Davi como essa liderança - e da destruição que ele trouxe e por fim, na maturidade, a luta por denunciar e impedir a aniquilação do povo yanomami, "e é a contra antropologia mas ainda trazendo a mitologia da Queda Do Céu”, explicam os documentaristas.


O caminho para manter a relação com a estética e a política e a frontalização do tema que está no cerne do livro - os humanos divididos entre os yanomamis e os napë - evita que A Queda Do Céu seja um filme só de denúncia que reproduz fórmulas de um cinema de cunho social: "fomos redescobrindo o filme no dia a dia e na experiência, com uma câmera muito aberta e muito porosa", pontuou Eryk Rocha. A penumbra, a noite e os rituais que ocorrem nela são personagens, assim como a chuva, a trovoada, a mata. Difícil não pensar nas imagens de Claudia Andujar e como as mesmas enraizam a visão yanomami que descentraliza o humano e apresenta uma floresta poliglota ou a forma como a música incidental é ausente no filme de Eryk e Gabriela, mas como um filme como A Natureza (2019), do teórico e documentarista armênio Artavazd Pelechian, inundado pela realidade ausente e pelo invisível dialoga com este, "a Queda trabalha a palavra na dimensão da montagem e tem a questão cósmica que os une, como descentraliza o humano ou desierarquiza o humano nos filmes dele. A dança cósmica 

A música é mais ausente no A Queda... Mas o pensamento do leste Europeu conflui com o yanomami", argumentou o cineasta brasileiro.


Kopenawa, uma personalidade fundamental no mundo e em defesa da floresta Amazônica, está em vários filmes como ator e interpretando vários temas, Eryk fez questão de frisar. E em A Queda Do Céu, um aspecto familiar permite que certa melancolia rasgue a tela e se assente, se tornando um pesar quando o céu faz barulho e escurece, com vários planos de yanomamis olhando para o firmamento ameaçador, pois o filme também acompanha os ritos que envolvem a homenagem funerária para o sogro de Kopenawa, ancião que também foi xamã da aldeia. A Queda Do Céu urgencia a necessidade de fazer a voz do xamã ecoar mas contextualiza desde as Xawara (doenças e epidemias trazidas pelos napë para as aldeias) até a destruição da terra pelo "povo da mercadoria", ou seja, nós mesmos, configurando uma virada dramatúrgica na narrativa que suscita a pergunta dos yanomami: "a câmera será a nossa aliada?"





 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
[Salas de Cinema] A Noiva!

Direção: Maggie Gyllenhaal Roteiro: Maggie Gyllenhaal #WarnerBrosPictures “Esta é uma história de fantasmas? Uma história de horror? Ou uma história de amor?”

 
 
 

Comentários


Post: Blog2_Post

11994972222

Formulário de inscrição

Obrigado(a)

©2023 por Kinemacriticas. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page