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[Festivais e Mostras] Aqui Não Entra Luz

  • Foto do escritor: Lorenna montenegro
    Lorenna montenegro
  • 18 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de set. de 2025

Direção: Karol Maia

Roteiro: Karol Maia e Muriel Alves (colaboração)




Dona Miriam é uma empregada doméstica que sempre levou a filha para o trabalho. A menina se acostumou com as idas e vindas às casas de famílias, onde eventualmente ganhava um agrado de uma patroa ou via o que as outras crianças tinham e como viviam, não sendo a ela permitido circular pela residência que era o local de trabalho da mãe. Karoline, a menina, cresceu e se tornou cineasta, com o seu primeiro longa-metragem, Aqui Não Entra Luz, tratando de advogar sobre as imagens que ainda formam o imaginário brasileiro acerca da senzala moderna, do racismo e do ódio de classe. O símbolo central do filme: o quartinho de empregada


A sessão do filme na mostra competitiva de longas do Festival de Brasília, foi permeada pela emoção e por palmas calorosas. A percepção é a de que talvez Aqui Não Entra Luz tenha comovido o público tanto quanto Quatro Meninas e os curtas-metragens Laudelina e a Felicidade Guerreira e A Pele do Ouro, que fabulam a partir de temas sensíveis envolvendo a opressão de mulheres racializadas.


Domésticas, as heroínas do filme de Karol Maia são, além de sua própria mãe, as fascinantes Rosarinho, Mãe Flor, Cris e Marcelina. A última personagens reflete mais a luta das empregadas domésticas por seus direitos enquanto uma categoria de trabalhadoras fundamentais para o funcionamento do país e a manutenção das disparidades sociais, ainda mais considerando que muitos países ditos mais desenvolvidos não possuem serviços domésticos nas suas sociedades. Uma das reflexões frontais provocadas por Aqui Não Entra Luz, que conta com a pesquisa portentosa de Isabella Santos é o quanto a senzala influenciou a criação do nefasto 'quartinho da empregada'. E um filme de 2009, exibido numa sessão especial durante esse 58ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, tem uma cena emblemática que é o sumo do que é o Brasil e de como essa questão da escravidão moderna pode ter uma de suas possíveis traduções: a empregada é expulsa do seu quartinho pelo filho do patrão, que se mudou para lá por causa do frio que tomou conta do Recife - e o cubículo, sem janelas, retém mais calor.


Aqui Não Entra Luz é um documentário sobre o gesto da montagem e sobre as escolhas feitas ao longo do processo de realização - e sobre como deixar o ecrã iluminar as personagens, também abrindo uma possibilidade de encenar a partir da autoficção a própria história da realizadora com a sua mãe, ao longo da infância e da adolescência e de uma inusitada situação na vida adulta da mesma, quando se viu trabalhando no mesmo lugar que sua mãe limpava. Para entender, partindo de um apelo artístico, um compromisso social e uma questão pessoal, Karol Maia foi buscar, dez ano depois do lançamento de Recife Frio, o filme citado no parágrafo anterior, personagens que pudessem relatar suas vivências e encorpar a ideia de que o racismo e o classismo são ideais que constroem tudo nesse país de herança colonial.


"Para além do sofrimento, meu filme trata da capacidade de agência das mulheres trabalhadoras domésticas" - Karol Maia

Rosarinho reconta, em torno da mesa durante um almoço com a filha e com Karol, que cresceu sendo feita de empregada em uma fazenda e que depois que mudou para a cidade e conseguiu seu primeiro pagamento, comprou uma saia jeans, algo que almejava ter. Muito ligada à sua cabocla Taquarina, do Tambor de Mina, Mãe Flor reforça que é uma negra vaidosa e luxuosa, que a vida difícil não a alquebrou. Já Cris relembrou, não sem gerar consternação, que foi sucessivamente maltratada por uma pastora que a colocou em cárcere privado, que prometeu que a ampararia e que acabou 'sumindo no mundo' com a filha da doméstica, que felizmente, como relatado nos créditos do filme, reencontrou quase 12 anos depois do ocorrido.


No debate realizado no dia posterior à exibição do filme no festival, Rosarinho e Dona Mírima puderam falar um pouco sobre o que representava estar no filme compartilhando suas vidas; que a gravação de Rosarinho, por exemplo, envolveu um gesto de licença por parte de Karol e da equipe, no que a documentarista completou que esse processo de oito anos a fez reolhar para si mesma e para a sua história. Foi quando eu consegui amadurecer a entrada das seis mulheres (uma das quais ficou de fora do corte final), na montagem foi que eu permiti a minha entrada e a da minha mãe no filme", assinalou.  E por mais que seja muito esperada e talvez, pela forma mais linear como o filme é narrado e costurado, a presença de Dona Miriam se dá num primeiro aspecto de forma quase espectral, por meio das fotografias, até que ela ganha tridimensionalidade e, com a filha, define que esse filme é uma forma de traduzir o amor que as une.


 
 
 

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