[Festivais e Mostras] Dia dos Pais
- Lorenna montenegro
- 31 de ago.
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de set.
Direção: Bernardo Ale Abinader

Um homem de seus 30 e poucos anos, atravessa um rio de voadora até chegar num bar flutuante, onde encontra o pai. Interpretado por Adanilo, um dos maiores atores brasileiros em atividade, o personagem central da trama de Dia dos Pais, o novo filme do premiado cineasta Bernardo Ale Abinader, mantém as produções amazônicas e amazonenses em destaque no cenário do audiovisual nacional.
Numa Manaus pós apocalíptica, embrulhada pela fumaça das queimadas, um filho vaga pelos rios, em busca do pai fugidio. O encontra e parte para a violência. Revisita as memórias, refaz percursos, vê cenários onde a afetividade rompe com a masculinidade que exclui e separa. Dia dos Pais é um exercício figurativo de imaginação e de reflexão sobre as relações paternais e a incomunicabilidade que muitas vezes as compõe. Homem que é homem não pode chorar, não pode abraçar, não pode beijar, não pode se demonstrar frágil. Por mais arcaico que soe, essa premissa ainda é recorrente ainda mais num país onde “a família, a pátria e a igreja” é a tríade que reforça a sociedade patriarcal como estruturante dos costumes - e das relações familiares.
O pai, vivido por Denis Lopes (da série Pssica) é um homem duro, caboclo mulherengo e relapso com a cria, o filho e a filha, vivida pela excelente Isabela Catão (protagonista do curta e do longa de Abinader em fase de desenvolvimento, O Barco e o Rio). A ruptura que o cineasta amazonense gera, entre o drama e a distopia, na escalada da ficção científica, é uma grata surpresa e torna a obra menos óbvia. Recurso semelhante de enredo - o revisitar e orquestrar de formas diferentes cenários e memórias - já foi utilizado em filmes como Estranhos Prazeres de Katheryn Bigelow, Existenz de Cronenberg e num dos melhores episódios da série antológica Black Mirror, intitulado The Entire Story Of You.
Mas em Dia dos Pais Bernardo cria algo autoral e genuíno, que espelha a realidade atual de destruição e cobiça da Amazônia, do agro que queima a floresta, do distanciamento afetivo provocado também pelas redes sociais e a hiperconectividade. Quantos subtextos de complexidades diferentes cabem na narrativa de um curta? Quantos forem possíveis de tornar em substância para um bom filme. E é o que Abinader faz.



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