[Festivais e Mostras] Nosferatu
- Lorenna montenegro
- 19 de set. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 20 de set. de 2025
Direção: Cristiano Burlan
Roteiro: Cristiano Burlan, Rodrigo Sanches, Emily Hozokawa e Fernanda Farias

Sinto aquela coisa no meu peito
Sinto aquela grande confusão
Sei que eu sou um vampiro
Que nunca vai ter paz no coração
Um personagem que possui reflexo no espelho e que está repleto de reflexões existencialistas; a epítome do vampiro, em sua concepção clássica, derivada da literatura romântica de inspiração gótica, é profundamente melancólica e existencial. O vampiro é a tradução do spleen, palavrinha contida no baço, o orgão que os gregos relacionavam aos sintomas. da melancolia, do pessimismo, do tédio e do desprezo pela vida - ou seja, o "mal do século", jargão popular no final do século 18.
Cristiano Burlan, cineasta do século 21 com mais de 20 filmes de longa-metragem no currículo, vocaliza que sua versão de Nosferatu é diáfana, liberta do personagem-ícone relacionado ainda (ou especialmente) ao Expressionismo Alemão, aqui traduzido como alguém que vive fugindo dos fantasmas do ontem e do hoje, que ganham corpo nas ruelas de uma cidade portuária deprimente ou nas baladinhas de uma São Paulo suja e rock and roll.
A dicotomia presente nos transbordos entre as linguagens do cinema e do teatro, sendo Burlan um cineasta que também atua como dramaturgo e diretor teatral, encontra talvez a elaboração sinestésica mais coesa e lírica nesse Nosferatu, em comparação aos experimentos anteriores - Hamlet e Ulisses. Porque Nosferatu escapa, em meio às sombras, do espelho tácito que reflete filmes herméticos e intelectuais. Afinal, o teatro é a ponte pela qual caminham os personagens ancorados em arquétipos e tipos presentes em filmes sobre os filhos amaldiçoados de Caim.
As referências as outras adaptações draculescas, como o Nosferatu máter, de Murnau, e a versão anacrônica e terrivelmente romântica de Werner Herzog, são difusas mas complementares dentro do tempo espiralar do cinema com o qual Burlan joga, alternando entre citações dentro da sua própria filmografia, como quanto a fantasma (Ana Carolina Marinho) vê a si mesma no ecrã do cinema, como a moribunda Ofélia em Hamlet ou mesmo Helena Ignez, repetindo o gesto marcante de verter sangue pela boca, sentada numa das cadeiras do cinema, enquanto sua imagem cristalizada, cinquenta anos mais jovem, realiza o mesmo ato em A Família do Barulho, de Júlio Bressane.
O cinema da Belair é uma catedral, de formas e jeitos de produzir, que sempre alimentou Burlan logo não é estranho o gesto e muito menos a escrita polifônica e porosa, ainda que poética e dirigida para a evocação literária - “Quem não consegue materializar os sonhos vai ao cinema”, assinala Nosferatu (Rodrigo Sanches) em confissão ao Padre (Biagio Pecorelli).



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