[Festivais e Mostras] O Agente Secreto
- Lorenna montenegro
- 13 de set. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 14 de nov. de 2025
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho

O ano é 2016. Wagner Moura, ator brasileiro, é vocal ao se manifestar politicamente contra o golpe que tiraria Dilma Roussef do poder e da cadeira da presidência da república em 31 de agosto desse ano. Meses antes, em maio, o processo de impeachment da presidente brasileira foi aceito pelo Senado Federal e no dia 17 desse mesmo mês, o cineasta Kleber Mendonça Filho e o elenco/equipe do filme Aquarius fariam no tapete vermelho do maior festival de cinema do mundo, em Cannes, um protesto denunciando o golpe, segurando cartazes com dizeres: “Brasil vive um golpe de Estado”. Um laço foi criado entre Wagner e Kleber motivado por razões políticas e a gênese do filme O Agente Secreto, a grande aposta do momento para a temporada de premiações, estava formada.
Mas antes de falar do filme em si, que estreou em maio deste ano, 2025, no mesmo Festival de Cannes - e de onde saiu com três prêmios: o de melhor ator para Wagner Moura, melhor diretor para Kleber Mendonça Filho e o de melhor filme pelo júri da FIPRESCI - é importante voltar para a linha do tempo do projeto, que de certa maneira é derivativo de outro filme do cineasta pernambucano, Retratos Fantasmas, lançado dois anos atrás.
Num tempo de muita pirraça no país... O ano: 1977. Kleber Mendonça Filho tinha 9 anos de idade e frequentava o Cinema São Luiz no Recife. Suas memórias, lembranças e afetos constituem o tecido imagético e sensorial do documentário que foi a indicação brasileira para concorrer a vaga ao Oscar 2024 e é um díptico de O Agente Secreto, já que, como lembra a produtora e sócia de Kleber na Cinemascópio, Emilie Lescaux, vários temas e personagens presentes no documentário sobre paisagens visuais e emocionais do Recife se repetem na obra de ficção estrelada por Wagner Moura.
Fazendo uma observação sobre o funcionamento do país a partir do seu lugar, Pernambuco, KMF se utiliza do artifício de narrar a história de um cidadão comum, mas não ordinário. Armando, um professor e chefe de departamento na Universidade, onde realiza pesquisas envolvendo a fabricação de carro elétrico é punido por ser extraordinário e desenvolver protótipos que ferem os interesses dos grandes e dos poderosos do "sul maravilha", indo além daquilo que lhe cabia, como, por exemplo, o desenvolvimento de uma nova tecnologia para o curtume do couro de bode.
O Norte contra o Sul
E ao desafiar a ordem vigente, enfrentando o personagem Ghirotti (Luciano Chirolli), um industrial que faz parte do conselho de uma empresa estatal que investe nas pesquisas acadêmicas mas não para "enriquecimento ilícito de comunistas", o personagem de Wagner, Armando, tem sua vida atropelada pela opressão e a violência do regime militar capitalista. O Agente Secreto do título, uma alusão, desvio ou contraponto a Eminência Parda que é o "lesa pátria, ladrão e assassino" representado pelo empresário sulista, que vive com o filho Salvatore (Gregório Graziosi) igualmente calhorda a tiracolo, como um capanga, inclusive sendo verbalmente escorraçado pela esposa de Armando, Fátima (Alice Carvalho) uma professora e militante que não leva desaforo pra casa e deixa o companheiro cedo demais, morta pelos milicos. A cena do jantar onde o casal não se subjuga a truculência disfarçada de sensatez de Ghirotti é fundamental para a virada na trama. Armando assume o codinome Marcelo e o filme começa com seu retorno para o Recife, para tentar juntar os cacos de sua vida, se unir ao filho e sair do país que o quer expurgar.
“Ao escrever o roteiro, fui me dando conta de que estava fazendo um filme de época mas que fala sobre o Brasil dos últimos dez anos; o pano de fundo do regime militar de certa forma se repete no contemporâneo com a extrema direita, já que a lei da anistia de 79 é um trauma que reverbera até hoje", assinalou Kleber Mendonça Filho durante a coletiva de imprensa realizada após a exibição do filme, no dia seguinte à abertura da 58a edição do Festival de Cinema de Brasília. O Agente Secreto opera verdadeiramente como uma máquina do tempo dialógica, ao ter como primeira cena uma sequência de fotos de personalidades e personagens brasileiros do final dos anos 70. A trilha sonora, como bem apraz o cineasta, também é um elemento diegético marcante na construção histórica, assim como a direção de arte absolutamente minuciosa e, - como bem apontou a atriz Maria Fernanda Cândido - nada ilustrativa, assinada por Thales Junqueira e sua equipe de dezenas de profissionais. Outro elemento fundamental para deslocar o olhar para um passado que insiste em voltar é a fotografia da russa radicada na França Evgenia Alexandrova (que também assina a cinematografia de outro filme pernambucano, Sem Coração), que se utiliza de lentes americanas Panavision dos anos 70, inclusive um set de lentes utilizado no filme Amargo Pesadelo. A cor altamente contrastada e com matizes vibrantes tornam O Agente Secreto num dos filmes plasticamente mais exuberantes feitos nos últimos anos.
Na mesma coletiva de imprensa, Alice Carvalho teve uma fala certeira que perfez do que o filme se trata: “O masculino é o vetor da brutalidade enquanto o personagem do Marcelo busca a mátria ou a pátria mãe, sendo amparado pela rede feminina representada pela Dona Veridiana”, definiu a atriz. O Agente Secreto é um filme coral, que reúne um grupo. de personagens (performados por um elenco superlativo, como já havia feito KMF em Bacurau e aqui com a precisão do Leonardo Lacca como preparador de elenco), boa parte deles, femininos, que margeiam a jornada de Marcelo do início ao fim, sendo os elos de afeto e contato entre o passado e o presente futuro. E aqui, nesse elenco formidável, que além de Alice tem Isabél Zuaa, Hermila Guedes, Aline Marta Maia, Suzy Lopes, Isadora Ruppert e a arrebatadora Tânia Maria como Dona Sebastiana, reside uma fragilidade: Laura Lufesi, a interprete de Flavia, que não traz a intensidade dramática e uma troca satisfatória com Wagner no epílogo do filme.
Por um cinema impuro e de disrupções narrativas
Mas, ainda que não seja impecável do início ao fim a narrativa impura de O Agente Secreto se constrói a partir da intersecção do cinema com as outras artes das quais deriva ou que contamina, num roteiro polifônico e sinestésico que, decupado e trazido à encenação fílmica, reconstitui a história de um militante morto pelos interesses escusos do capital que financiou o golpe militar. A atriz Isabel Zuaa, também na coletiva de imprensa, destacou que sentia "uma democracia da montagem muito potente no filme”, possibilitando cenas e momentos onde os diversos personagens teriam papeis importantes a desempenhar mensurados num tempo de tela equivalente com a necessidade do enredo. O Agente Secreto é o filme mais ambicioso e mais maduro dentre os longas ficcionais de Kleber Mendonça Filho, trazendo repetições de motifs que o interessam como a música popular brasileira (e até internacional, como Chicago e Donna Summer), a vida que irrompe e segue em meio à destruição, seja por meio do sexo que pulsa na tela ou no carnaval, e o cinema, especialmente aquele americano que é formativo da cinefilia do cineasta recifense, então para além da referência frontal ao Tubarão de Spielberg, que se torna parte do detonador da trama central, sobram outras mais obvias, em cartaz nos cinemas em 77 e outras sublimadas, como a perseguição de bandido por bandido após o tiroteio inicial no departamento de identificação (a la Alan J. Pakula ou Sidney Lumet, ao som de guerra e pace, pollo e brace do Ennio Morricone) e a sequência do ataque na Praça Treze de Maio, que irrompe silencioso até descambar para o gore, como num filme de John Carpenter - ainda que, estilisticamente, a estrutura guarde mais semelhanças com Nashville, Oeste Selvagem e O Perigoso Adeus, todos filmes realizados por Robert Altman na década.
O espetáculo cinematográfico e semiótico é frenético e possibilita ainda certo contentamento durante a fruição, onde a fabulação perpetrada pelo cineasta dá conta de artimanhas como a que os jornalistas utilizavam para evitar os censores e denunciar os abusos policiais e crimes cometidos, como a leitura da notícia sobre os ataques da perna cabeluda que havia sido arrancada do corpo ao qual esteve ligada um dia pela intervenção de um tubarão na praia de Boa Viagem; a galeria masculina de tipos que desfilam ao longo das duas horas e poucas da duração de O Agente Secreto é pitoresca, grotesca e sedutora, indo do "doutor" Euclides de Robério Diogenes até o doce Seu Alexandre (Carlos Francisco, magnífico), sogro de Armando e projecionista do Cinema São Luiz. Alguns dos planos mais bonitos do filme - à semelhança do que ocorre em Retratos Fantasmas - são filmados dentro das dependências do recinto, como uma tomada onde o personagem de Wagner senta numa cadeira e se debruça sob a janela ao lado da cabine de projeção, enxergando uma ponte sob o rio Capibaribe, numa clara referência ao Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore.
E talvez, a exemplo do que já havia ocorrido com Bacurau, nas cenas onde os forasteiros sulistas são confrontados com a sua verdade - se acham melhores brasileiros do que os de cima, do Norte mas os americanos os consideram igualmente capachos - a dicotomia Norte/Sul não seja bem absorvida, compreendida ou mesmo aceita por algumas fatias do público brasileiro, como quando o "misterioso turista sulista é morto" ou a professora gaúcha da UFPE acaba sendo cooptada para trabalhar na indústria em São Paulo. Ou talvez os entendimentos parciais sejam de outra ordem, mais cognitiva, que pode dificultar o gesto transparente de representar a calamidade que foi a morte do menino Miguel Otávio com a cena em que a mãe, empregada doméstica, invade a delegacia para confrontar a patroa que deixou a filha dela morrer durante o serviço doméstico. Ou certos signos como a gata siamesa Liza/Eliz, que divide o mesmo tronco de onde surgem duas cabeças que perscrutam o semblante de Armando, como se examinassem a alma do protagonista, enquanto ele mergulha em suas memórias e remorsos, causam estranheza que pede por significado para quem quer tudo mastigado - que está acostumado com um certo tipo de cinema formulaico e industrial que colonizou o imaginário mundial.
"Eu não me preocupo se o filme vai ser totalmente entendido pois isso não vai acontecer nunca. Isso só acontece com filmes de mercado americanos ou mesmo nesses, tem algumas coisas que fugiam à minha compreensão como o fato dos personagens saírem com bebidas em sacos de papel de lojas. Nenhum filme parou para me explicar isso; e aí chegam algumas pessoas para mim e dizem: nossa, a perna cabeluda, realismo mágico! É uma interpretação gringa para qualquer coisa que é da América do Sul. E não, não se trata disso." (KMF)



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