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[Festivais e Mostras] Quatro Meninas

  • Foto do escritor: Lorenna montenegro
    Lorenna montenegro
  • 17 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de set. de 2025

Direção: Karen Suzane

Roteiro: Clara Ferrer




Era uma vez, em 1885, quatro meninas pretas que sonhavam em ser donas do próprio destino. Residindo em um internato no interior do Brasil e sendo escravizadas, elas se irmanam como forma de sobrevivência. E cada uma delas, espelhadas em suas sinhazinhas, passam por um rito de amadurecimento no filme homônimo da estreante Karen Suzane.


Um filme de amadurecimento que realoca signos de filmes que abordam a escravidão neste país e também pelo mundo, Quatro Meninas não usufrui do sofrimento impetrado aos corpos pretos na senzala. A roteirista Clara Ferrer opta por um caminho de encruza que não é usual, que estabelece um vínculo entre o terreno/corpóreo e o espiritual/sensorial que habita Lena (Dhara Lopes),  Tita (Ágatha Marinho), Francisca (Maria Ibraim) e Muanda (Alana Cabral).


Colaboradoras contumazes, Ferrer e Suzane realizaram o curta "A Mulher Que Eu Era" seis anos atrás, perseguindo uma temática semelhante: a sororidade e a rede que se forma entre mulheres negras, como forma de escapar das violências naturalizadas e frequentes, celebrando a liberdade alcançada ao longo de um determinado percurso. Neste longa, a tônica se mantém a mesma, com a diferenciação de que, no decorrer da história, à exceção de Dona Iaiá (Dani Ornellas), a mentora das meninas, todas as outras personagens que interagem com as protagonistas são mulheres brancas. Ou ainda, não há personagens de homens negros no filme, sendo que o grande antagonista delas é um homem branco, o monstruoso professor Vicente, vivido por João Vitor Silva.


As quatro jovens atrizes que interpretam as meninas da senzala tem uma sincronia mágica e conseguem estabelecer um vínculo forte com o público, ao passo em que a rivalidade com suas contrapartes brancas, vividas por Giovanna Rispoli, Gabi Cardoso, Duda Matte e Duda Batsow não tem muito material para trabalhar nas nuances e subjetividade de suas personagens. Existe um certo maniqueísmo em Quatro Meninas, na forma como o roteiro endereça certos aspectos de maneira tímida ou quase insuficiente, sendo necessária a defesa do encadeamento das tramas e o desenvolvimento do enredo, como ocorreu no debate do filme no Festival de Brasília. E no caso, não seria necessário recorrer ao não visto ou não resolvido para fortalecer a jornada das protagonistas.


A falsa simetria entre as dores das quatro meninas pretas e das quatro meninas brancas talvez seja fruto de uma certa ingenuidade presente no roteiro de Ferrer, ainda que possa ser entendido como um exercício de fabulação ali proposto, que se soma a certos aspectos anacrônicos da narrativa, para talvez estabelecer no presente, as dinâmicas de luta de classes postas no ecrã. E talvez, elos como o de Francisca e Titi, a sinhá ruivinha, não precise de muita explicação, ao passo em que talvez fosse necessário explicitar melhor os motivos pelos quais cada uma das meninas brancas também optaram por fugir do internato.


Mas Quatro Meninas, em se tratando de um primeiro longa metragem ficcional de uma carreira promissora, tem suas fragilidades ao lado de suas qualidades irrefutáveis, como a escalação das quatro atrizes centrais, o desenvolvimento do arco de Lena, a mais espevitada e revolucionária dentre elas, que puxa a história para frente e provoca o incidente excitante, a fuga do internato. É ela, vivida por Dhara Lopes, quem está sendo procurada por Vicente, sendo o objeto do desejo perverso do homem branco, um Dorian Gray maligno que a bestializa para obter prazer.


Interessante observar que Karen Suzane sabe muito bem o que está fazendo como quando decupa os planos que mostram a aproximação entre as quatro meninas centrais e a forma com que as quatro meninas coadjuvantes ficam um tanto apartadas, no casarão abandonado onde se abrigam e boa parte do segundo ato do filme se desenvolve. A cozinha e a mesa da copa se tornam um espaço de comunhão, de libertação e de relaxamento para Lena, Tita, Francisca e Muanda, enquanto são observadas pelas outras, que esperam ser servidas, ou que caem em si como na cena dos 'cinco caroços', onde Tita negocia com as patrícias, enquanto o blocking ou a forma com que as atrizes estão dispostas em suas marcações na cena e no enquadro, reforça as rivalidades.


A fotografia, muito bem trabalhada na iluminação a la Barry Lyndon, com lampiões e luzes externas ou luz natural, cria camadas de compreensão que amalgamam o imaginário de Lena, permeado por pesadelos onde a cor vermelha predomina e um desenho sonoro profundamente imersivo, permeado por sons da natureza ao redor do casarão e por pontos, cantigas do candomblé, como a louvação à Oxossi que Lena canta no clímax no filme. E Quatro Meninas repousa na fábula como uma maneira de criar narrativas outras sobre a escravidão, projetando no hoje uma possibilidade de pactuação racial ou ao menos de respeito entre as mulheres, meninas, que vivem juntas uma experiência transformativa.




 
 
 

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