O Festival de Cannes é, sem dúvida, o maior e mais influente festival de cinema do mundo. Todos os anos, a Croisette se transforma no epicentro das discussões cinematográficas, com a competição oficial atraindo os holofotes da mídia e do público. No entanto, Cannes também é palco de seções paralelas que ampliam o olhar sobre o cinema contemporâneo. Uma delas, a Un Certain Regard (Um Certo Olhar), foi criada em 1978 para dar visibilidade a filmes que fogem do padrão dominante, seja pela ousadia estética, pela abordagem temática ou pela origem geográfica. Neste artigo, mergulho na história dessa mostra que se tornou um dos barômetros mais importantes do cinema de arte e autor.
Origem e História
A Un Certain Regard foi instituída em 1978 por Gilles Jacob, então delegado geral do Festival de Cannes. A ideia era criar uma vitrine para filmes que, embora não competissem pela Palma de Ouro, mereciam atenção especial por suas qualidades artísticas ou relevância cultural. Desde o início, a mostra se destacou por apresentar um cinema mais arriscado, menos preocupado com o mercado.
Nos anos 1980 e 1990, a seção revelou diretores que se tornariam referências mundiais: o chinês Jia Zhangke, o romeno Cristian Mungiu, o tailandês Apichatpong Weerasethakul – todos passaram pela Un Certain Regard antes de conquistarem o reconhecimento global. Em 2005, a seção ganhou seu próprio prêmio, o Prix Un Certain Regard, patrocinado e com uma dotação financeira, o que ajudou a consolidar a mostra como uma plataforma de lançamento para talentos emergentes. Desde então, o prêmio se tornou um selo de qualidade, frequentemente indicando filmes que dominariam a temporada de prêmios.
Características da Seleção
Os filmes da Un Certain Regard são conhecidos por sua diversidade. Enquanto a competição oficial tende a favorecer diretores consagrados e produções de alto orçamento, a mostra é mais aberta a experimentações formais e narrativas. É comum que os filmes abordem temas como migração, identidade de gênero, conflitos políticos e memória histórica. A curadoria busca um equilíbrio geográfico, com representantes da Ásia, África, América Latina e Europa, fazendo da seção um retrato do cinema mundial em sua variedade de vozes.
Outra característica marcante é a aposta em primeiras e segundas obras. Muitos diretores estreiam na Un Certain Regard e depois migram para a competição oficial, mas a mostra mantém seu perfil ousado, sendo um espaço seguro para filmes que desafiam convenções.
Prêmio Un Certain Regard e seu Impacto
O principal prêmio da seção é o Prix Un Certain Regard, concedido ao melhor filme. Além dele, existem menções especiais e o Prêmio do Júri, e desde 2019 há também o prêmio de Melhor Atriz e Melhor Ator. O impacto pode ser significativo: filmes como Dogtooth (2009), de Yorgos Lanthimos, ganharam o prêmio e depois se tornaram fenômenos cult. Whiplash (2014), de Damien Chazelle, levou o Prêmio do Júri na Un Certain Regard e foi indicado a cinco Oscars, vencendo três. Mais recentemente, The Worst Person in the World (2021), de Joachim Trier, ganhou o prêmio de melhor atriz para Renate Reinsve e foi aclamado mundialmente.
A premiação funciona como um termômetro: filmes que se destacam na Un Certain Regard frequentemente chegam ao Oscar ou a outros grandes festivais. Isso mostra que a seção não é apenas uma vitrine, mas um trampolim para o reconhecimento internacional.
Filmes e Cineastas Revelados
Uma lista de obras que passaram pela Un Certain Regard lê-se como um catálogo do melhor cinema contemporâneo. The Salesman (2016), de Asghar Farhadi, ganhou o prêmio de melhor ator e atriz e depois levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Pesar de Todo (2015), de László Nemes, venceu o prêmio principal e também conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Mudbound (2017), de Dee Rees, foi exibido na mostra e recebeu indicações ao Oscar, incluindo Melhor Atriz Coadjuvante.
Na edição de 2022, Return to Seoul, de Davy Chou, e The Eight Mountains, de Felix van Groeningen e Charlotte Vandermeersch, foram destaques, confirmando que a Un Certain Regard continua a ser um celeiro de novos talentos e narrativas urgentes.
Un Certain Regard e o Cinema Brasileiro
O Brasil já marcou presença na Un Certain Regard. Em 2021, A Viagem de Pedro, dirigido por Alexandre Moratto, foi exibido na mostra e conquistou o prêmio principal. O filme, que aborda o retorno de Pedro II ao Brasil após o exílio, foi aclamado pela crítica e trouxe visibilidade ao cinema nacional no circuito internacional. Outros filmes brasileiros também passaram pela seção, reforçando a importância desse espaço para a produção autoral do país.
Ter um filme na Un Certain Regard é um selo de qualidade que abre portas para distribuição e coproduções. Para o cinema brasileiro, representa a chance de dialogar com audiências globais e mostrar a riqueza de nossas narrativas.
Perguntas Frequentes sobre a Un Certain Regard
Qual a diferença entre a Un Certain Regard e a Competição Oficial?
A principal diferença está no perfil dos filmes selecionados. Enquanto a competição oficial prioriza nomes consagrados e produções de grande porte, a Un Certain Regard aposta em obras autorais, temáticas ousadas e talentos emergentes. A seção não disputa a Palma de Ouro, mas tem seu próprio prêmio, que carrega prestígio considerável.
Como os filmes são selecionados para a mostra?
A seleção é feita pela direção do Festival de Cannes, com base em inscrições e convites. O comitê busca equilibrar tendências estéticas e representação geográfica, mantendo o espírito de descoberta que define a Un Certain Regard.
Quais diretores ficaram famosos após passarem pela Un Certain Regard?
Muitos cineastas hoje consagrados começaram na Un Certain Regard. Exemplos incluem Yorgos Lanthimos, Cristian Mungiu, Apichatpong Weerasethakul, Asghar Farhadi e Damien Chazelle. A seção funciona como uma vitrine para novos talentos, e vários de seus egressos ganharam prêmios importantes depois.
Onde assistir aos filmes da Un Certain Regard?
Após o festival, muitos filmes são distribuídos em salas comerciais, plataformas de streaming ou participam de outros festivais. A programação completa de cada ano é divulgada no site oficial do Festival de Cannes, e os títulos mais aguardados geralmente chegam ao circuito comercial alguns meses depois.
A Un Certain Regard continua a ser uma das seções mais vibrantes e essenciais de Cannes, oferecendo um contraponto necessário ao brilho da competição oficial. Para quem ama cinema, acompanhar a mostra é uma forma de descobrir o que virá a ser o cinema do futuro. No Kinemacriticas, estarei sempre de olho nos lançamentos e nas descobertas dessa mostra fascinante.